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artigos: sexualidade na adolescência

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Falar de adolescência é falar de sexualidade. Nesse período, instala-se o ciclo menstrual, na menina, e ela tem a primeira menstruação. No menino, desenvolve-se a capacidade de ejacular. A principal característica biológica da adolescência é que as pessoas tornam-se capazes de ter relações sexuais com penetração e procriar.

Um dado biológico interessante é que as mudanças corporais da adolescência estão ocorrendo cada vez mais cedo. Isso se deve a mudanças no clima, na alimentação, etc. E acontece mais cedo nos países quentes do que nos países frios.

Mas a sexualidade é muito mais do que sexo ou relações sexuais. Além do aspecto biológico, envolve também o psicológico e o social. Nós não somos apenas órgãos sexuais que andam. Somos homens ou mulheres, educados como tal e que também nos sentimos como tal.

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, adolescência é aquela fase que vai dos 12 aos 18 anos incompletos. Até os 12 anos, a pessoa é criança; aos 18, já é adulta. A adolescência é a etapa que faz a ponte entre a infância e a vida adulta.

A adolescência sempre existiu e sempre vai existir. Mas só começou a adquirir importância no nosso século. Nossas bisavós casavam-se cedo, engravidavam na fase que hoje chamamos de adolescência. E isso era considerado normal.

Muita coisa mudou neste nosso século, em termos econômicos e sociais. Está cada vez mais difícil preparar-se para o trabalho. Ou seja, a pessoa está (ou deveria estar) a cargo da família e da escola durante mais tempo, preparando-se para o exercício de uma profissão.

As pessoas adolescentes representam importante fatia de consumo. Há toda uma indústria voltada para elas: roupas, músicas, locais de divertimento, filmes, etc. Até a indústria ilegal e desumana das drogas parece voltada para o público adolescente.

Existem, porém, muitas adolescências. Nem todas as pessoas vivem a adolescência da mesma forma. Além das diferenças individuais, por exemplo, a adolescência do rapaz é diferente daquela da moça. Há de se considerar as diferenças de classe social: a adolescente de classe média vive a adolescência de forma diferente daquela de classe econômica alta ou baixa. O rapaz da cidade pequena vai viver a adolescência de forma diferente daquele dos grandes centros urbanos. Há diferenças devidas à origem familiar (p. ex., diferenças entre famílias de origem árabe e alemã). Há adolescentes que têm de trabalhar desde cedo, apesar da proibição legal. Há o caso de jovens de classe média que ficam morando com os pais mesmo depois de terminar a faculdade. E por aí vai.

Hoje, parece que só ouvimos falar de sexualidade na adolescência como problema. Aumento do número de meninas que engravidam. Aumento do número de jovens contaminados pelo vírus da Aids ou por outras doenças sexualmente transmissíveis. Jovens que devido a baixa auto-estima procuram as drogas ou têm comportamento anti-social.

Acredito que isso acontece devido ao tipo de educação sexual que estamos dando aos jovens. E todo mundo tem uma educação sexual, mesmo que dada nas entrelinhas. Por exemplo, há crianças que aprendem que sexo é algo que nunca deve ser mencionado.

Hoje, estabelecemos que o objetivo de qualquer educação é contribuir para a construção da cidadania. E cidadania significa prática de direitos e deveres.

Assim, a educação sexual vai muito além da mera informação sobre aspectos biológicos da sexualidade. Envolve a discussão dos aspectos psicológicos e sociais. Família, escola e outras instâncias têm de trabalhar em conjunto para formar futuros cidadãos e cidadãs.

Há pessoas que são contra a educação sexual das crianças. Não param para discutir que o que vai ser apresentado depende da faixa etária da criança. Apesar da proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais, muitas escolas ainda relutam em abordar temas relativos à sexualidade, pois temem entrar em confronto com as famílias. Ao mesmo tempo, nem todos os professores e professoras sentem-se preparados para assumir essa responsabilidade, sem acesso a cursos específicos. As famílias, por sua vez, não exigem das escolas esse tipo de atividade, muitas vezes por medo de que despertem no jovem o interesse por manter relações sexuais.

Esse é uma mentira que passa por verdade para muitas pessoas: que a educação sexual pode levar a pessoa adolescente a procurar ter relações sexuais.

Mas existem muitos outros preconceitos na área da sexualidade. E preconceitos do mundo adulto, passados para crianças e adolescentes. Por exemplo, ainda se acredita que anticoncepção é coisa de mulher. Afinal, se é a mulher que engravida, é porque não se preveniu, não se cuidou. Por isso, numa educação sexual voltada para a construção da cidadania, não adianta só falar dos métodos anticoncepcionais, sem falar de relacionamento, de como um casal deve discutir um método anticoncepcional que considere o melhor. É preciso trabalhar com os jovens a questão dos direitos e deveres iguais de homens e mulheres. Hoje, já se usa a expressão gênero, para falar dos aspectos psicológicos e sociais das relações entre homens e mulheres. Então, temos de trabalhar no sentido de construir novas relações de gênero. E trabalhar isso também com crianças e pessoas adultas.

Às vezes, queremos nos enganar, afirmando que só os adolescentes têm dificuldade. Uma pesquisa recente afirma que ocorrem no Brasil entre 1 milhão e 4 milhões de abortos por ano, dos quais 25% são feitos por adolescentes. Isto é, as mulheres adultas respondem por ¾ dos casos de aborto no país. Ou seja, as mulheres adultas também não sabem lidar com a anticoncepção, com o uso dos métodos anticoncepcionais, e têm de recorrer a uma solução drástica. Além disso, há também o número de mulheres que recorrem à laqueadura, ou ligação de trompas, e à vasectomia, no caso dos homens, que são métodos permanentes. Não há volta. Isso indica que as mulheres e homens adultos também não sabem lidar com a anticoncepção.

O mesmo vale para a Aids. Hoje, vemos pesquisas informando que não só os meninos, mas também os homens, têm dificuldade de usar o preservativo de borracha. Mulheres adultas estão contraindo o vírus da Aids porque não conseguem negociar com seus parceiros o uso da camisinha. E os homens não estão sabendo aprender novos comportamentos.

Tudo isso é para dizer que nós adultos temos de pensar numa educação sexual que vá além da simples informação. Temos de formar meninos e meninas adolescentes, que atuem como multiplicadores de informação. Temos de estar mais abertos a reconhecer que muitas vezes faltam-nos a informação, a metodologia. Outras vezes, temos medo de ir longe demais e não colocamos à disposição dos jovens os métodos anticoncepcionais disponíveis ou não ajudamos meninos e meninas a questionar o papel tradicional atribuído aos sexos na nossa sociedade.

Educar os jovens para a participação, para os deveres e os direitos, para a cidadania que todos desejamos ver se espalhando cada vez mais em nosso país, é uma responsabilidade do adulto.