Vera Vaccari psicoterapia

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Nos últimos anos, muitas conquistas têm sido alcançadas no Brasil pelos movimentos de mulheres, nas mais diferentes áreas: saúde, trabalho, educação, luta contra a violência e outras. Novas visões, de eqüidade, estão sendo aos poucos construídas.

Mas, a despeito dessas conquistas, ou, melhor, a partir delas, muito tem ainda a ser feito. Há um longo passo até o reconhecimento e exercício dos direitos da mulher enquanto direitos humanos e, como tais, vantajosos para a sociedade como um todo.

Em algumas áreas, parece haver um uso do 8 de março em detrimento da qualidade de vida da própria mulher. Muitas empresas limitam a comemoração do Dia Internacional da Mulher à oferta de mimos, como flores e bombons, às funcionárias. O exercício do direito a creches, a locais para amamentação e a acesso a cargos de chefia, entre outros, não são nem ao menos mencionados. Isso sem falar no direito de homens e mulheres ao acesso a um trabalho que lhes permita sustentar a si mesmos e às suas famílias.

Na área de sexualidade, situações de assédio, abuso e violência ainda são difíceis de denunciar. Em caso de assédio, o medo de perder o emprego ou de ser considerada de alguma forma culpada pela situação pode fazer com que mulheres evitem denúncias. A probabilidade de culpabilização da mulher também paralisa vítimas de estupros.

Nas revistas e programas ditos femininos, parece haver um enxurrada de matérias sobre sexualidade, muitas ainda propondo a mulher como objeto sexual, que deve esforçar-se para “levar seu homem à loucura na cama”. No lado oposto, compondo a mesma moeda, apresenta-se a mulher que só se preocupa com a casa e as crianças. Novelas, filmes, propagandas, com raras exceções, mantêm mulheres e homens em seus papéis mais tradicionais.

Uma situação comum em consultórios de terapia é a da mulher que não tem desejo. A mulher às vezes procura ajuda profissional não porque esteja se sentindo incomodada com a situação, mas devido às queixas do companheiro. No decorrer do tratamento, não é incomum encontrar situações que parecem próprias de filmes, como a da mulher que, ao chegar do trabalho, tem de preparar a comida, limpar a cozinha, verificar tarefas escolares e outras atividades, enquanto o parceiro lê jornal. Nem é incomum que o parceiro reclame da falta de disponibilidade da mulher para o sexo. Outras vezes, a alegação de que busca o bem-estar do companheiro evita que a mulher se exponha, assumindo suas próprias necessidades e vontades, que considera inaceitáveis, erradas, não dignas de uma mulher “séria”.

Outra situação que parece vir do passado, embora seja parte do presente, é o da mulher que se queixa da falta de orgasmo. No decorrer do tratamento, fica muitas vezes patente a pobreza das preliminares (pela educação, há homens e mulheres que entendem relação sexual como penetração vaginal).

A dor na penetração e a impossibilidade de penetração também têm na educação repressiva uma boa dose de sustentação. No tratamento, percebe-se o quanto a masturbação feminina ainda é objeto de tabu. Mulheres que mal e mal conseguem tocar-se para a higiene íntima muitas vezes precisam de um longo tempo até aceitar a idéia de que podem – e devem – aprender a tocar-se por prazer.

Essas situações, com sua grande carga de sofrimento, podem ainda ser somadas às dificuldades da mulher de exigir do parceiro o uso do preservativo. E também podem ser vistas numa legislação que culpabiliza o/a agente e a paciente, mas não o pai, que muitas vezes é quem leva a mulher a buscar o aborto.

Essas situações ilustram o quanto ainda mulheres e homens precisam lutar pela eqüidade – entendida não como “direito a fazer coisas”, mas sim como direito a desenvolver potencialidades e a exercer cidadania.