Assim como em qualquer outro processo de psicoterapia, naquele denominado “sexual” também apresentam-se resistências, que, superadas ao longo do trabalho, contribuem para o crescimento da pessoa e a vivência da sexualidade de uma forma mais criativa ou pelo menos não tão conturbada.
Muitas das resistências advêm da visão dos indivíduos sobre “o que se deve” ou “o que se pode” e “o que não se pode” ou “o que não se deve” fazer, o que é próprio ou impróprio.
Os códigos de conduta – essa listagem interna de cada um sobre o que é adequado ou inadequado – são construídos no processo de socialização e, portanto, estão intimamente ligados à cultura.
Nenhuma cultura lida com o sexo “como um fato natural bruto, mas já o vive e compreende simbolicamente, dando-lhe sentidos, valores, criando normas, interditos e permissões” ChaUÍ (1991: 22).
Esses sentidos, valores, normas, interditos e permissões representam aquilo que se costuma chamar de “repressão sexual”.
A repressão sexual faz parte do modo de viver da sociedade e se manifesta naquilo que se chama de senso comum. Para CHAUÍ, o senso comum é “Um conjunto de crenças, valores, saberes e atitudes que julgamos naturais porque, transmitidos de geração a geração, sem questionamentos, nos dizem como são e o que valem as coisas e os seres humanos, como devemos avaliá-los e julgá-los. O senso comum é a realidade como transparência: nele tudo está explicado e em seu devido lugar”.
A teoria das representações sexuais abre-nos uma grande possibilidade de estudo do senso comum e, portanto, dos mitos e tabus que nos cercam a respeito da sexualidade.
No contexto do presente texto, mito não é entendido como uma história de tempos imemoriais que explica a realidade, mas sim como uma explicação do senso comum para questoes do cotidiano.
Tabu, segundo Chauí (1984), é aquilo de que não se fala. Isto é, aquilo que é dado por garantido ou então difícil demais de falar.
Mitos e tabus então fazem parte da representação social que os indivíduos de um grupo ou sociedade têm a respeito de algum assunto. Assim, representação social pode ser definida como a visão de mundo das pessoas de um grupo, de forma que diferentes grupos possuem diferentes representações.
O estoque de representações à disposição de um indivíduo não é infinito, como pode parecer à primeira vista. Na realidade, esse estoque é bastante limitado. (Lefevre e Lefevre, 2000).
A representação social da sexualidade
No que se refere à sexualidade, as representações sociais, embora limitadas em número, são necessariamente diferenciadas para homens e mulheres, embora também complementares.
Dessa forma, homens e mulheres vivem a sexualidade de maneiras diferentes, socialmente definidas, embora as diferenças pessoais também não devam ser esquecidas. É no campo da sexualidade que as desigualdades sociais entre homens e mulheres surgem talvez com maior força, pois é o campo da relação direta entre os dois gêneros, que envolve, além de todas as questões da desigualdade, também os aspectos afetivos mais intensos.
Mas homens e mulheres dos setores mais pobres da população vivem sua sexualidade de maneira diferente daquela de pessoas de setores mais ricos. Há também as diferenças etárias e outras a serem consideradas.
Em geral, sancionados pela religião e associados ao papel sexual-social por isso só a informação não é suficiente – questionar/discutir/ajudar a refletir alguns:
No consultório, muito do trabalho consiste em ajudar a pessoa a modificar essas representações, para que possam incorporar em suas vidas os conhecimentos trazidos pelas diferentes ciências envolvidas no estudo da sexualidade (sexologia, psicologia, biologia, medicina, antropologia, sociologia, história e outras).
Assim, por exemplo, no tratamento de uma pessoa com queixa de disfunção, não basta indicar leituras e atividades.
No caso da biblioterapia, como há a representação social de que “o homem sabe”, é provável que indicar-lhe a leitura de um livro sobre sexualidade masculina vai colocá-lo diante da situação de que “não sabe”. Caso essa contradição não seja trabalhada na sessão, o cliente pode viver uma situação de grande conflito, vivido como resistência à leitura, à compreensão do texto etc.
Para a mulher, ao contrário, a leitura não implica em “testemunho de ignorância”. As revistas femininas em geral trazem reportagens sobre.
O mesmo vale para outras atividades propostas na psicoterapia.
A sexualidade envolve, portanto, além do aspecto biológico (o sexo), também o psicológico (a identidade) e o social (o gênero).
No que se refere ao aspecto biológico, os seres humanos podem ser, como todos os mamíferos, machos ou fêmeas, sendo que a diferença entre eles é restrita: “quando chegamos aos imperativos biológicos reservados a todos os homens e mulheres, verificamos que existem apenas quatro: somente o homem pode fecundar; só a mulher pode menstruar, gestar e amamentar” (TUCKER e MONEY, 1975: 36). Mais adiante, continuam: “Além das quatro funções reprodutoras básicas, nada – nada – das diferenças entre os sexos está ordenado de forma imutável segundo as linhas sexuais. Se você pegasse uma amostra aleatória de homens e mulheres do mundo inteiro e os graduasse conforme cada uma das diferenças geralmente aceitas entre os sexos, veria que uma divisão completa só existiria no gráfico que divide aqueles que podem fecundar e os que podem menstruar, gestar e amamentar; e até mesmo aqui poderia haver alguma dúvida no caso de um hermafrodita. [...] Você encontraria enormes áreas de sobreposição nos gráficos de altura, peso, aptidões, e assim por diante, até chegar à linha divisória de diferenças arbitrariamente atribuídas, tais como quem esfrega o chão, quem pinta o rosto e outras divisões do tipo, que variam enormemente com a época e a geografia”.
Nem sempre, porém, essas diferenças são entendidas como arbitrariamente atribuídas a homens e a mulheres. Segundo o senso comum e seu sistema de preconceitos, as diferenças são nada menos do que verdades e fruto da própria natureza – e, portanto, imutáveis. Além disso, não só estabelecem diferenças, mas também hierarquia, de modo que a mulher ocupa uma posição socialmente inferior.
Quanto ao machismo, que se baseia nessa hierarquização, afirma CHAUÍ (1991: 227): “...arriscaríamos as seguintes hipóteses para compreendê-lo e ao seu avesso complementar: em primeiro lugar, a repetição, no interior da casa, do que se passa na sociedade e na política como um tudo, isto é, a privatização e pessoalização das formas de autoridade; em segundo lugar, também a reiteração do mecanismo sócio-político de transformação da assimetria (no caso homem-mulher, pais-filhos, irmão-irmã) em hierarquia, a diferença sendo simbolizada pelo mando e pela obediência; em terceiro lugar, a compensação pela falta de poder real no plano sócio-político, o machismo funcionando como racionalização, assim como a feminilidade (‘atrás de todo grande homem, há uma grande mulher’, indicando que há um poder ou autoridade femininos que se exercem sob a condição de serem dissimulados e ocultados pela obediência e pelo recato)”.
O conceito de gênero é fundamental para se compreender e superar os preconceitos e a relação assimétrica entre homens e mulheres. Ao retirar a ênfase do sexo (= biológico) e passá-la para o gênero (= social), o conceito permite a análise da desigualdade entre homens e mulheres a partir do construído e, portanto, mutável. Dessa forma, também permite que mulheres e homens participem em conjunto da busca de soluções para a superação da desigualdade. Além disso, possibilita que a categoria gênero integre-se à análise e à busca de soluções para as demais desigualdades sociais.
A inferioridade social de um gênero diante do outro, baseada e mantida pelo preconceito de gênero, é, como no caso dos outros preconceitos, reproduzida e mantida de diferentes formas, no processo de educação. Cria-se, assim, a situação de que a mulher também é responsável por essa reprodução e manutenção de preconceitos de gênero, no sentido de que também os aceita como verdades inquestionáveis (a esse respeito, ver DE BARBIERI, 1997: 72. Essa autora cita pesquisas realizadas no México que mostram que o controle das noras é exercido pelas sogras e não pelos maridos.)
A manutenção e reprodução dos preconceitos de gênero está na base daquilo que se costuma chamar de repressão sexual e que CHAUÍ (1991: 9) define como “um conjunto de interdições, permissões, normas, valores, regras estabelecidos histórica e culturalmente para controlar o exercício da sexualidade”.
A repressão sexual, que afeta homens e mulheres de formas diferentes, embora profundas, é mantida por uma teia de instituições, como a família, a escola, a religião, o Estado.
Representação social
Teoria compartilhada por um grupo de sujeitos.
Fornece crivos de leitura do mundo? construtoras da realidade social.
Visão de mundo da pessoa.
Cada grupo na sociedade tem um estoque diferente de representações à disposição
Ex.: profissionais de psicologia e trabalhadores da construção civil
Representação social do sexo: mitos e tabus sobre a sexualidade – repressão sexual, que CHAUÍ (1991: 9) define como “um conjunto de interdições, permissões, normas, valores, regras estabelecidos histórica e culturalmente para controlar o exercício da sexualidade”.
O exercício da sexualidade é definido de diferentes formas: por gênero, por classe social, por faixa etária, por situação especial (padres e homens casados...).
Gênero: construído no processo de educação, com base no sexo.
Simone de Beauvoir: Nascemos machos ou fêmeas e nos tornamos homens ou mulheres.
Um código diferente para cada um, embora complementar.
• Coisa de mulher
-- tudo que se relaciona com a reprodução/criação e portanto à anticoncepção (“dar um filho ao marido”)
-- idéia da pureza, da virgindade e portanto não precisa de proteçao (não vai sair para transar // “acontece”)
-- dever e não prazer conjugal
-- novidades na área: orgasmo simultâneo/orgasmo obrigatório/orgasmo múltiplo
-- mulher direita não ... para as outras, o código é diferente
• Coisa de homem
-- sempre a postos
-- tamanho do documento
-- homem sabe tudo sobre sexo (não precisa conversar)
-- áreas proibidas do corpo
Questão da idade
-- velho assanhado
-- sexualidade adolescente com todos os preconceitos (estão tomados pelos hormônios)
Como isso se reflete no consultório
-- educar é ajudar a questionar a visão de mundo, para desconstruir as representações existentes e construir novas.
-- não adianta apenas informar
-- conhecer as representações, que também se manifestam como resistências (inconscientes), lembrando que a r.s. pode ser consciente ou inconsciente
Exemplo de dificuldades (manifestadas como resistências):
homem sabe tudo sobre sexo? como o homem vai entender a recomendação da leitura de textos? (Mulher, mais fácil, embora medo de andar com livro sobre sexo.)
posição sexual (mulher em cima):
masturbação:
observação dos genitais:
