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A cristalização da vida cotidiana

Não sei se é paródia ou realidade, mas reparto aqui o peixe como o comprei.

Li que quando ele chegava à esquina, o responsável erguia os olhos para a torre da cidade e respirava aliviado quando o relógio estava certo, pois seria inimaginável que o grande filósofo [até hoje considerado um dos maiores na história da filosofia] Immanuel Kant poderia atrasar-se ou adiantar-se nem que fosse por segundos. Qualquer divergência seria atribuída ao mecanismo, que teria de ser devidamente ajustado. O filósofo só teria quebrado seu costume duas vezes: uma, enquanto lia Emílio, de J.J.Rousseau, o que ilustra como a leitura pode nos engrandecer, e no dia em que chegaram notícias da eclosão da Revolução Francesa, com seus ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, com os quais comungava.

Pode até parecer engraçado, um homem-máquina antes de Robocop e congêneres. Mas a forma rígida de viver está muito mais presente do que imaginamos. Não me refiro aqui a quem apresenta transtorno obsessivo-compulsivo, também conhecido como TOC, com o grande sofrimento causado pelo que os demais chamam de “manias”, mas que são formas de expressão de dores e conflitos inconscientes. Com medicamentos e psicoterapia, os resultados podem ser muito bons para a pessoa[e para quem vive à sua volta].

Falo daquela rigidez tão “normal”, tão parte de nós, que nem a percebemos. Apresenta-se como uma cristalização da vida cotidiana, tanto nos pensamentos quanto no nosso próprio corpo.

Aprendemos a viver de uma determinada forma, a acreditar em determinadas leis não escritas, às quais atribuímos status de verdade absoluta, a ponto de agir automaticamente, em função delas, sem refletir se representam o melhor para a nossa vida e a dos demais. São as leis dos preconceitos, que buscam garantir que nada mude, indo na contramão da vida, que pulsa, em constante mutação.

Há quem afirme que começamos a entrar em contato com o mundo social ainda no útero materno, pois somos afetados por algumas bebidas, fumo, alimentos, drogas, estado de espírito materno.

A convivência com adultos e crianças na família, na escola, na rua, no parque, na igreja, seja onde for, contribui para essa forma rígida de ver o mundo, pela vontade de agradar, pelo medo de consequências, pelos elogios… E repetimos indefinidamente esse jeito aprendido, às vezes até a morte. Outras vezes, temos a sorte de reconhecer o mal que isso faz a nós mesmos, a quem está à nossa volta e até mesmo a quem está distante, como no caso do que ocorre, por exemplo, com grupos indígenas, que sofrem todo tipo de agressão à sua terra e maneira de viver.

O pior é que nem percebemos que as ideias estão ali,tão naturais nos parecem. E assim racismo, machismo e outros ismos destrutivos influenciam ações que contribuem para a manutenção do ciclo vicioso de pobreza, infelicidade, violência contra a mulher em todos os níveis, espancamentos e mortes de pessoas que se definem como LGBT+ (lésbicas, gays, travestis, transgêneros…). Falo de ismos destrutivos, pois há também os positivos, como altruísmo, feminismo (que luta pela igualdade de direitos entre todas as pessoas) e outros.

E, fruto de um machismo desbordado, há o comportamento destrutivo expresso na homofobia, que vai desde fofocas e olhares enviesados até espancamento e morte de pessoas cujo único crime é não se adequar às ideias rígidas de como deve ser ou agir um homem ou uma mulher. A mera existência de pessoas que se descrevem ou são vistas como lésbicas, gays, travestis, transgêneros… parece incomodar profundamente a uma parte da população, mesmo nas famílias. E isso decorre dessa rigidez, que faz com que o mais importante seja o modo de ser considerado correto e aceito e não o afeto pelo membro da família ou o respeito devido a qualquer ser humano.

No momento, o STF proibiu essa indecência chamada de “cura gay”, cujos métodos fazem lembrar os de horrores de manicômios de antanho e contra a qual o Conselho Federal de Psicologia (CFP) luta ferrenhamente há décadas. Mas é preciso atenção, pois a Resolução do CFP proibindo psicólogos de atuar na tentativa de “curar” a pessoa gay e não a sociedade preconceituosa é de 1999. São 20 anos – e ainda há quem queira que seu filho ou filha seja tratado, no sentido de ser transformado em alguém com comportamentos sexuais de acordo com as expectativas sociais e familiares.

E há quem busque tratamento, recusando seus anseios e vivendo um mundo interno repleto de perseguição, sofrimento, negação dos próprios desejos.

Psicoterapia deve contribuir para a pessoa ser quem é e receber plena aceitação por isso, desenvolvendo seu potencial. Pais/mães muitas vezes procuram ajuda para aprender a aceitar, a sacudir para longe de si a rigidez, as expectativas irreais, e permitir que o amor impere. Se formos pensar em termos psicanalíticos, que a pulsão de vida e não a de morte dê forma aos relacionamentos. Pessoas que se descobrem, ou que têm medo de se descobrir, gays, lésbicas, transgêneros, travestis… podem aprender a quebrar o preconceito contra si mesmas, que muitas vezes abrigam. No processo de psicoterapia podem aprender a se amar, a se valorizar, pois, além de qualquer norma social, são humanas, dignas e aptas a usufruir de todos os direitos, humanos, civis, políticos, sexuais.

Como diz um ditado antigo, visto de perto ninguém é normal. Melhor, olhando de perto a pessoa mais certinha, se fosse possível ler pensamentos e sentimentos muito bem escondidos, sabe-se lá o que iríamos encontrar. Talvez o desejo de sacudir de si as amarras e voar, voar, voar.

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  1. Antônio Pimentel disse:

    Acho que todos, ou quase, queremos voar. Temos dias de passarinhos ou aves mais encorpadas. Nem sempre voamos. Nossas amarras pesam mais. Sou preocupado com a força do senso comum na sociedade, cristalizações de “verdades” que atrapalham nossas vidas. Atualmente, o Brasil vive um momento preocupante de expressão de “verdades do senso comum”, sem a mediação da crítica e do bom senso. Risco puro.

Vera Lucia Vaccari
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