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A Dor e a Transformação
por Vera Vaccari

“Sairemos transformados dessa situação!”, escutamos a todo momento sobre a pandemia que nos mantém a parte da população em isolamento social.

Entendo que quem faz essa afirmação esteja, mais do que refletindo, trazendo à luz o anseio de um mundo mais solidário, mais feliz.
São muitas as catástrofes desde o início do século XX, as mais próximas de nós, de diferentes naturezas. Epidemias, ditaduras, guerras (locais e mundiais), revoluções, terremotos, tsunamis…

O mês de abril viu no passado não tão remoto a liberação do campo de concentração de Buchenvald, onde milhares de pessoas perderam a vida nas mãos dos nazistas.

Esse fato, isolado, já nos mostra como é fácil falar de transformação e como é difícil alcançá-la. Parafraseando Sartre, claro que a transformação sempre deve ser a do outro, que, por falta ou excesso de (cada qual completa aqui o que achar necessário) não contribui para a realização da terra do leite e mel, ansiada desde as profundezas do tempo, prometida nas páginas do Antigo Testamento.

Saída da barbárie do nazifascismo, as sociedades ocidentais, apesar de muitas conquistas, não mergulharam na solidariedade e na paz.
As guerras coloniais foram até mesmo intensificadas, com a mesma barbárie, se não maior. Nós, no Brasil, há poucas décadas saídos de uma ditadura (lembrada com saudade pelos que admiram os porões ensanguentados), com marcas profundas do passado escravocrata reproduzido no presente na desigualdade, que relega à miséria milhões de pessoas, vemos o recrudescimento da guerra contra os povos originários, com uma crueldade que mereceria elogios de alguns bandeirantes.

A dor, o sofrimento de qualquer tipo, seja vivido pessoal ou vicariamente, pode ter um potencial transformador. Acompanho no cotidiano profissional como pessoas descem ao´último círculo do inferno para se reinventar, de modo mais realista, mais vívido.

Mas o discurso da transformação não leva necessariamente a ela. Para mudar, temos de aceitar que há ganhos e perdas, que temos de arregaçar as mangas, realizar. Olhar para as necessidades do outro e se dispor a abrir mão de privilégios, entendidos como direitos.

Deixar como está, esperando que as mudanças necessárias, tanto pessoais quanto sociais, caiam prontas do céu equivale a fechar os olhos, aguardando que leite e mel encham a boca.

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  1. Antônio Pimentel disse:

    Ótimas reflexões. Acho bonita a esperança de transformações após a pandemia do coronavírus. Mas não aposto em grandes mudanças sociais. Nossa performance de humanudade não aconselha esse otimismo. Aposto, contudo, em pequenas e boas moléculas de mudanças pessoais, familiares, de vizinhança, comunitárias. Podemos melhorar. Podemos aprender com o tempo de confinamento. Sou otimista, com cautela.

Vera Lucia Vaccari
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