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A vida e os chapéus
por Vera Vaccari

Em menina, ganhei uma coleção de mitos e contos de diferentes locais do mundo. Nunca me esqueci de um mito africano, encantador. Passei a usá-lo em consultório, pois uma boa história pode ser melhor do que muitos discursos explicativos. E às vezes, na minha vida, também me pergunto se estou olhando direito para aquele chapéu.

O mito fala de um príncipe muito poderoso, depois considerado um dos orixás das religiões de matriz africana. Poderoso e protetor, mas também muito vingativo, quando não se sentia valorizado. Entendo que tinha muitas qualidades, assim como muitas pessoas, mas precisava de atenção intensiva.

O príncipe protegia a dois lavradores, muito amigos, que lhe prestavam homenagens e que trabalhavam em fazendas, uma de cada lado de uma estrada.
Um dia, o príncipe passou, vestido com roupas comuns e não suas roupas luxuosas de sempre. Os dois lavradores mal olharam para ele e continuaram seu trabalho na terra. Depois, quando pararam para descansar, perguntaram um ao outro que seria aquele homem que tinha passado por ali. Nenhum dos dois sabia quem era e esqueceram o assunto.

Eles esqueceram, mas Exu não. Profundamente ofendido, resolveu se vingar, ensinando aos dois homens uma lição: que deviam cumprimentar a quem passasse e homenagear a quem de direito.

No dia seguinte, o príncipe, com roupas luxuosas, passou novamente pela estrada. Mas não dava para ver seu rosto, encoberto por um chapéu enorme, chamativo. Cumprimentou a um dos homens, de um lado da estrada, e depois ao vizinho, do outro lado, e seguiu seu caminho.

Aquele luxo chamou a atenção dos dois lavradores, que se aproximaram da cerca para trocar ideias sobre quem seria aquele homem que acabava de passar, com roupas tão destacadas e um chapéu como nunca tinham visto. Concordaram que deveria ser um príncipe de muita importância.

Um dos amigos elogiou a beleza do chapéu vermelho que o homem usava. O outro discordou: o chapéu era sim maravilhoso, mas azul. Vermelho, dizia um, tenho certeza do que vi. Azul, gritava o outro, você acha que não sei distinguir cor? De grito em grito, enfurecidos, partiram para a luta corporal. Só pararam de se socar quando estavam com as roupas rasgadas, e sentiam doer o corpo todo.

Ao longe, o príncipe observava o que acontecia, tendo em mãos seu belíssimo chapéu bicolor. Vermelho de um lado e azul do outro. Cada um dos lavradores só tinha visto um lado – azul ou vermelho. Ambos lutaram entre si porque os dois estavam corretos.

Às vezes, nem preciso dizer nada depois de contar sobre o chapéu do príncipe e os dois lavradores. Quem ouve em geral já afirma que as pessoas fazem isso muitas vezes. Os casais, os familiares, os amigos, os partidários de ideias…

Esquecem-se de que o diálogo é de mão dupla: falar, mas também ouvir. Colocar-se no lugar do outro, para entender.

Há pessoas que pensam muito diferente de nós. Às vezes, dá para conviver com a diferença, que é boa, quando é possível trocar ideias, uma ouvir a outra, ambas aproveitando a oportunidade de crescer. Outras vezes, não dá. São ideias, expectativas, modos de ver o mundo que podem impossibilitar a convivência cotidiana. Nesse caso, é preciso escolher. A vida está repleta de escolhas assim.

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Comentários
Comentários  (2) Comentário(s)
  1. Elisabeth kamadjian disse:

    A vida é um espetáculo…pra se viver com harmonia e sabedoria, temos que ser bons artistas e bom espectador, é bastante complexa,totavia, vale muito participar desses belos eventos…

  2. Marita Veiga disse:

    Uma pena q o diálogo tenha ficado “fora de moda”
    Quantas desavenças poderiam ser evitadas !

Vera Lucia Vaccari
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