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Aprender a dizer não
por Vera Vaccari

Meus avós paternos vieram da Itália no porão de um vapor, com famílias oriundas de diferentes países, embora a maioria fosse da Itália, assim como eles.

Do porto de Santos, foram para o interior de São Paulo, trabalhar em uma fazenda de café.

Duas décadas depois, foram trabalhar a terra que lhes pertencia, também plantando café.

Uma vez, coube a meu pai, ainda adolescente, acompanhar a um dos seus irmãos mais velhos a Santos, para o despacho do café.

A mãe, dentre as duas mil, trezentas e cinquenta recomendações, acrescentou a de que fossem visitar a amiga que havia feito no navio, uma senhora cuja família tinha uma loja na rua Vinte e Cinco de Março, levando de presente produtos da fazenda.

Trocadas as novidades, a senhora convidou os dois para almoçar. Servida a comida, ela colocou no prato do meu pai uma generosa porção de quibe cru.

Ele, que só comia carne esturricada, ficou com medo de ofender a dona da casa e levar uns cascudos da mãe, não teve dúvidas. Segurou a respiração e engoliu a carne crua.

Sorridente, a mulher, que entendeu que ele havia gostado da comida, não teve dúvidas. Encheu o prato dele com outra porção generosa. Ele, retribuindo o sorriso, forçou-se a comer tudo, sem deixar restos, como exigia sua mãe. Claro que passou mal no trem de volta para o interior, mas isso é outra história.

Costumo contar esse causo quando atendo a pessoa que faz de tudo para agradar a outrem. É como se engolissem quilos de quibe cru, detestando cada bocado, com medo de ofender ou desagradar. Melhor, com medo de perder o amor. Acredita no fundo que, se mostrar qualquer sinal do que pensa ou deseja, vai deixar de ser aceita.

Age como se fossem Maria vai com as outras, quando é na verdade uma Maria que se força a ir com as outras, com medo de ser deixada para trás. Sabe o que quer, o que almeja, mas, como um pássaro que se põe a si mesmo em uma gaiola, têm medo de distender as asas e voar.

Mas é gratificante estar junto quando essa pessoa percebe que, embora possa não voar para as nuvens, como as grandes águias, pode pelo menos voar para a árvore mais próxima e curtir o cheiro e o sabor das frutas… Melhor, o cheiro e o sabor da vida.

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Vera Lucia Vaccari
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