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Da Pedra Bruta ao Cristal Esculpido
por Vera Vaccari

Tenho sobre uma estante, no meu consultório, alguns objetos que ganhei de clientes ou amigas. Foram escolhidos para estar sempre à vista porque representam algo importante para mim, pessoalmente, em especial como psicoterapeuta.

As pedras brutas mantêm a constante memória de que às vezes, psicoterapeuta e cliente, co-participantes do processo, estão juntos em uma labuta em comum, que, de um lado, pode levar ao caminho das pedras, da saída do sufoco, e, de outro, exige um esforço constante de ambas as partes. Às vezes de lágrimas, de dor, outras de riso, de bom humor ao encarar as vicissitudes da vida, é uma vereda de descobertas e conquistas.

O caminho das pedras, que leva a uma praia sem idealizações, com todos os problemas do cotidiano encarados com realismo e, ao mesmo tempo, com otimismo, é representado por uma Pietà esculpida a laser em um bloco de cristal transparente. Foi-me dada por uma pessoa que durante o processo de psicoterapia sentiu ter saído de uma cruz. Emocionante.

Mas olhando-a agora, a Pietà traz também à memória uma viagem especial, feita com minha mãe, que estava então com mais de 85 anos. Seu sonho era ir a Roma e enfim conseguimos partir rumo à Cidade Santa.

Foi uma viagem muito especial. Muito religiosa, dona Judith sentia-se na obrigação (e no direito, no que se referia a mim e a meu marido) de assistir missa em cada igreja visitada, não importando o tamanho. Nosso recorde foi de cinco, no mesmo dia.

E ocorreu que, um dia, horror dos horrores, ela esqueceu no hotel o terço que rezava durante horas, todos os dias.

Terço em Roma? Mesmo que água no Pantanal. Por todo lado.

Entrei na loja da própria basílica em que estávamos e comprei um terço de pétalas de rosa.

Não serviu! Não estava bento.

Ó, céus! Ainda bem que padre em Roma também dá que nem chuchu em terra boa.

Olhei à volta e lá vinha um, com hábito marrom, indo em direção à porta. Uma corridinha. Parei diante dele. Olhei para ele, ele olhou para mim. Esqueci como se dizia benzer em inglês. Em pânico, peguei o terço na mão esquerda e com a direita fiz o sinal da cruz. Por sorte, ele captou o que eu queria. Pegou o terço, benzeu e fez uma oração em latim. Agradeci, aliviada. Não seria preciso voltar ao hotel.

Mas, onde entra a Pietà? Na basílica de São Pedro, junto com o terço. Naquele tempo, há uns 20 anos, era entrar direto, sem passar por detectores de metal e revistas. Descemos ao local em que, aos pés da imagem de bronze de são Pedro, padres rezam sua primeira missa. Passamos a mão no pé da imagem, vimos as maravilhosas obras de arte para todo lado.

Até que, rumo à saída, passamos diante da Pietà.

Dona Judith olhou para aquela maravilhosa obra de arte, o mármore contando uma história tão divina e humana, e não teve dúvidas. Pegou novamente o terço, ajoelhou-se e começou a rezar.

Tentamos interromper, dizendo-lhe que a cada ônibus que chegava muitas pessoas acotovelavam-se para ver a linda imagem. Tínhamos dado sorte de encontrar o local sem ninguém.

Ela se recusou a sair. Ajoelhada, baixou a cabeça e não nos deu mais atenção.

De repente, chegou uma multidão de turistas, coisa de vários ônibus cheios, todos aflitos para tirar fotos e admirar a obra de arte de séculos, que nos comove e inspira.

Começou um empurra-empurra. Meu marido e eu não tivemos saída. Demos os braços e agarramos cada um do seu lado na grade de proteção da pequena capela, protegendo a velhinha já amiudando.

Ela, sem perceber a luta de empurrões, rezava impávida.

Ao terminar, virou-se para nós e disse: Viram? Há poucas pessoas aqui, além de nós. Não precisava mesmo ter ido rezar em outro lugar.

Gosto muito dessa história, assim como de muitas outras durante essa viagem, como a da visita e almoço com os padres dentro dos muros da Santa Sé.

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  1. Antônio Pimentel disse:

    Gostei muito. A transformação da pedra bruta é bela metáfora e processo precioso. Coleciono peças de cerâmica. Sempre trago uma das minhas viagens. O barro transformado por mãos anônimas é bela expressão cultural. É um gesto criador de cultura. Agora, nada melhor do que Dona Judith e sua fé, que move montanhas e afasta turistas. Ótimo!

Vera Lucia Vaccari
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