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De calças compridas e outras coisinhas mais

Na sua casa em Montreal, mal terminei de almoçar, minha amiga canadense colocou um livro em minhas mãos.

– “Conhece esta autora?”, perguntou.
– “Sim”, respondi. “Há um livro dela traduzido em português. Mulher comestível.”
– “Então, leia este. Foi lançado há pouco e está sendo muito comentado. Gostei, mas achei assustador.”

Meados da década de 1980, perguntei-me o que poderia assustar àquela mulher, diretora de uma ONG de direitos humanos. Curiosa, li o livro de um só fôlego e logo descobri.

Chegaram de mansinho, proibindo coisas consideradas pequenas, como o uso de calças compridas em prédios públicos… Essas coisinhas incomodaram a muitos homens e mulheres, mas acharam que não valia a pena lutar por ninharias.

Mas, devagar, as ações repressoras foram crescendo, tirando as mulheres da vida pública, pisoteando conquistas, chegando ao que se vê hoje na série “O Conto da Aia”, também nome do livro.

Minha amiga comentou sobre a preocupação com os movimentos evangélicos, que tomavam conta do interior dos Estados Unidos e dali se espalhavam para outros países.

Montados em uma leitura ao pé da letra da Bíblia, ocupavam rádios, praças, cinemas, televisão, jornais, revistas… Hoje, também na internet e nas redes sociais. Desde então, a pregação está repleta de ódio ao diferente; defesa das armas; submissão irrestrita da mulher, relegada ao papel doméstico; aceitação do homem branco como o único filho de Deus sem restrição… Ideias que varreram a Europa na primeira metade do século XX continuaram a ser propagadas. E continuam.

O fundamentalismo cristão é antimulher, alertava o livro de Margaret Atwood, como todo fundamentalismo. Não antifeminista, contra a luta das mulheres pela equidade de gênero, mas sim como a bota que acalca no chão até mesmo a ideia de humanidade feminina.

Abaixo a educação acima da básica para as mulheres, fora com a educação sexual que defende o conhecimento e a autonomia, morte à ideia de diversidade de qualquer tipo, direito é só para quem tem…

Lembrei-me disso ao ler que uma ministra do governo, que se diz pastora, considera que está na hora de que as Igrejas assumam o poder.

Como, nesse ano e tanto de governo, tivemos oportunidade de verificar que as ideias dela ressoam fortemente as expostas no livro.

Alguns caem no erro de rir dela, do pé de goiaba bichado em que se apoia, deixando de lado que ela traz propostas que estão sendo há décadas disseminadas entre parcelas da população, já devidamente catequizadas.

Se não abrirmos os olhos, logo serão proibidas as calças compridas em alguns locais públicos…

Mulheres e homens de boa vontade, está na hora de acordar.


Série: The Handmaid’s Tale
O Conto da Aia
2017 ‧ Drama ‧ 3 temporadas

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Comentários  (2) Comentário(s)

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Comentários
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  1. Dennis Ramos disse:

    “Os direitos não são permanentes, você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” – Simone de Beauvoir.

  2. Valeriano Casillas disse:

    Certeiro e oportuno alerta.
    A religião , qualquer uma, que deveria ser libertadora e aberta para o bem de todo ser humano, perde sua missão e se converte em opressora quado as pessoas a utilizam via proselitismo, fundamentalismo e outros…
    Para fins nada religiosos.

Vera Lucia Vaccari
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