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No mesmo barco

O poc-poc-poc do motor dos barcos do Araguaia deixava-me aflita, mal-humorada, disposta a pular nas águas profundas e nadar, se soubesse fazê-lo e não morresse de medo dos grandes peixes, inclusive o famoso poraquê ou peixe elétrico, personagem de muitas histórias de mortes de ótimos nadadores.

Tinha de viajar fora, sol ou vento, para sofrer um bocadinho menos da enxaqueca que com certeza se seguiria à viagem, quinzenal ou mensal, de visita a escolas rurais naquele grande município paraense.

Na época, na década de 1980, era, junto com Judite Albuquerque, coordenadora de um projeto de formação de professores leigos em sala de aula. Explicar como fui parar ali já daria um livro. Basta dizer que acredito na educação em qualquer nível e situação como forma de construir relações mais equitativas.

Um dia, longa viagem, com parada apenas ao cair da noite para pendurar rede e tentar dormir, estava sentada fora, quando comecei a ver grandes troncos arrastados pela correnteza. Quando a quantidade deles aumentou, o barqueiro buscou um lugar seguro para esperar. Estava acostumada a ver os grandes caminhões madeireiros, às vezes mal conseguindo se arrastar sob o peso de um único imenso tronco, mas, no rio era a primeira vez.

Madeira, disse o barqueiro, à guisa de explicação, diante da minha expressão de surpresa.

Isso vai demorar. E foram horas assistindo à passagem dos grandes troncos, uma quantidade que parecia sem fim, até que apareceram duas barcaças, que os vinham como que empurrando, com a ajuda da correnteza.

Mogno, cerejeira, castanheira a caminho do porto, creio que do Maranhão. Seriam exportados, assim, em natura.

Aquela riqueza toda escoava a preço de banana, para as luxuosas fábricas de móveis de outros países, deixando a terra arrasada onde antes havia floresta.

E não era apenas a madeira nobre que se ia (ainda vai?), sem beneficiar a população local. O tempo todo, tombando aqui e ali, nas paradas dos ônibus, era comum encontrar um ou dois estrangeiros, acompanhando homens da região. Não tenho nada contra pessoas de outros países. Adoro conhecer diferentes povos e culturas; acredito que é assim que se constroem laços e se vencem preconceitos. Sou descendente de estrangeiros, que aqui se fixaram em 1897 e aqui tiveram seus filhos, netos, bisnetos e trinetos. Mas tenho ressalvas quanto a quem fazia (talvez ainda faça) uma busca nada discreta sobre o uso medicinal de plantas. Um conhecimento desenvolvido por índios e caboclos por séculos, colocado de mão beijada a serviço do lucro, sem que a população que o desenvolveu e o passou oralmente, de geração a geração, seja minimamente beneficiada com os tais royalties. E ainda lemos às vezes que os povos da floresta não produzem riquezas…

Escrevi sobre isso num livro para adolescentes, na década de 1990, chamado Sangue na Floresta, publicado pela FTD.

Tudo isso está relacionado à autoestima de um povo, que olha para fora, em vez de olhar para dentro e à sua volta. Para sua história, para suas riquezas, para suas conquistas, para suas penas, para o muito que há a fazer para chegar à modernidade.

Um tanto da autoestima que as pessoas buscam com afã parece estar relacionada a uma sociedade tão dividida, para não dizer esquizofrênica, como a nossa. Maravilhas da tecnologia ao lado de trabalho escravo; acesso ao luxo, ao lado de crianças morrendo por desnutrição ou devido a doenças decorrentes da falta de saneamento básico; proibição ou esquecimento da vacina contra o HPV, que evitaria no futuro que milhões de mulheres desenvolvessem câncer de colo de útero. A lista é tão longa que, desenrolada, seguiria todo o caminho tortuoso do Araguaia, nos seus mais de 1900 quilômetros, da nascente na Serra do Caiapó à comunhão com as águas do Tocantins.

Não estamos soltos no ar e sim ancorados em um mundo repleto de injustiças. Se não temos clareza do que ocorre à nossa volta, vamos continuar a nos afogar no consumismo; na valorização daquele homem tão charmoso e rico, não importa que desonesto e violento; na pobreza humana de se olhar ao espelho e não ver que o corpo e o rosto estão maravilhosos, mas os olhos não brilham.

E tudo é autoestima – estar de bem em um País de bem.

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  1. Mariza Figueiredo Martins disse:

    Uma lutura emocionada! Obrigada por nós proporcionar esse prazer!

  2. Vera Lúcia de O. Barbosa (Uxa Barbosa) disse:

    Incrível!

Vera Lucia Vaccari
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