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Pés no chão, cabeça no alto, conquistas na mão

Tinha um tio chefe de estação de trens. Íamos visitá-lo todos os anos. Era bom quando trabalhava em uma pequena estação, mas foi muito melhor quando foi transferido para uma cidade maior, com entroncamento, e podíamos acompanhá-lo nas manobras dos trens, viajando na máquina, ou, sozinhos, em trem de passageiros, indo à cidade mais próxima e voltando, se autorizados pelo tio e pela garantia de outro trem em sentido contrário. Ô delícia.

Mas o que mais me encantava é que o chefe de estação esperava perto da borda a chegada de cada trem, tendo nas mãos o que me parecia uma borracha. O maquinista vinha com outra e eles faziam a troca rapidamente, o que me parecia o máximo dos máximos, o trabalho mais importante do mundo. Decidi de uma vez por todas: seria maquinista.

Tão-logo informei à família da importante decisão, tão-logo recebi não um simples banho, mas sim uma cachoeira inteira de água fria. Só homens podiam trocar a misteriosa borracha.

Dei ali um salto rumo ao feminismo, que nem sabia ainda que existia.

A partir desse primeiro salto, foram muitos, às vezes com consequências dolorosas para mim, com família, namorados, trabalho, até “encontrar minha turma”: mulheres que pensavam como eu. Mais tarde, conforme meus horizontes foram se ampliando, encontrei também homens dispostos a questionar as relações desiguais entre os gêneros.

Entendo feminismo como a busca pela construção da equidade, da igualdade de direitos entre pessoas diferentes. Defende que mulheres e homens, brancos, negros, indígenas, orientais, possam desenvolver seu potencial como seres humanos plenos, cada um dentro de seus anseios e possibilidades. Por isso, junta-se à luta contra todos os tipos de desigualdades: de raça, etnia, cor da pele, origem. E também àquela relacionada a pessoas que se aceitam como lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e outras. Fico sempre em dúvida se rio, choro, xingo ou “parto para a ignorância” ou “resolvo no braço” quando ouço que o machismo é o oposto, como direito dos homens, ou resultado do feminismo.

Não! O machismo vem desde sempre na sociedade, inferiorizando não só à mulher, mas também a todos os homens que expressam sua sexualidade de um modo que se considera fora dos padrões. Busca o contrário: mostrar poder sobre as mulheres e os homens mais fracos, mais pobres, mais vulneráveis; eliminar o direito à diferença, a expressões de vida que vão contra aquilo em que acreditam. Daí as ideias de que a mulher tem de ser inferior ao homem, a violência contra a mulher, em todos os seus níveis; o assassinato de moradores de rua por diversão; o espancamento e morte de gays, lésbicas, travestis, transgêneros. Por isso o machismo é exacerbado no fascismo, em religiões e grupos retrógrados, que pregam o fundamentalismo: a obediência da mulher; a manutenção da pobreza; a pena de morte e outras. E considera que conquistas como leis de cotas, início do pagamento da dívida histórica do País a sua população negra e indígena, como ataque ao direito dos brancos. Mas há inúmeros outros exemplos, infelizmente.

Ah, claro que há mulheres machistas, que defendem as ideias e as práticas contra a equidade, e homens feministas, que se colocam ao lado de outros homens e mulheres nas ideias e práticas pela equidade. Por isso as ideias avançam, apesar das pedras no caminho.

Interessante observar como essas questões surgem em psicoterapia, tanto individual quanto de casais. Ideias retrógradas e novas se misturam, trazendo dúvidas e infelicidade. Homens que se sentem mal no papel de provedores, buscando repartir responsabilidades e direitos com mulheres que preferem o papel submisso. Mulheres que têm trabalho profissional, seja em que nível for, e também a responsabilidade pelas crianças e pela casa; na hora de dormir, estão mortas, e os companheiros dizem que são frias como geladeiras, pois não querem ter relações sexuais. Mulheres frustradas por serem preteridas em promoções. Homens que sofrem assédio moral de outros homens… Mulheres desestimuladas pelas famílias a seguir determinadas carreiras, consideradas masculinas. Homens com medo de “falhar” na relação sexual. Outra longa lista, que mostra com clareza como problemas sociais se refletem na vida individual.

Claro que processo de psicoterapia não é local de catequização de homens e mulheres. O Conselho Federal de Psicologia tem normas claríssimas, disponíveis no Portal do CFP, sobre o respeito às crenças de quem procura psicoterapia em busca de alívio do sofrimento. Mas, no decorrer do processo psicoterapêutico, a pessoa que passa a olhar o mundo de uma forma diferente vai agir de modo diferente. Como ser igual quando algo internamente mudou?

Quem já não ouviu dizer que “Fulano(a) começou a terapia e, ao invés de melhorar, piorou? Nunca teve boca para nada e agora briga à toa. Já falei pra mudar de psicólogo(a), pois com esse(a) aí não vai chegar a nenhum lugar”.

“Piorou” porque se espera que a pessoa em terapia se torne mais humana, mais em contato com seus sentimentos, menos voltada para si mesma, mais disposta a aceitar a diversidade da vida, a ser solidária,  e a lutar por cumprir seus sonhos, sempre com o pé no chão, a cabeça no céu, e as conquistas nas mãos.

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  1. Dennis Ramos disse:

    Fantástico! Mais um de seus textos que abrange todas as áreas da diversidade humana. Precisamos estar atentos e atentas à naturalização da violência de gênero. Segundo Swain (2016) “precisamos ficar atentas aos muitos modos de produção do patriarcado, que passeia novamente em roupas renovadas.”

    “Devemos estar atentos àqueles que veem ameaças fantasmagóricas em identidades diferentes” – Judith Butler.

  2. Elisabeth kamadjian disse:

    Incrível a natureza é muito sábia…
    Porisso respeitar as diferencas é uma obrigação…faz parte da educação familiar,escolar e religiosa de cada ser humano…
    Vamos viver com respeito,amor e muitas alegrias.

  3. Lilian Maria Black disse:

    Sem dúvida nenhuma precisamos aprender e aceitar as diferenças em todos os ambitos

Vera Lucia Vaccari
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