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Protocolos Sem Pessoas

Entendo que protocolos médicos – a orientação de como fazer diagnóstico e tratamento em diferentes áreas da saúde – são úteis e necessários. Mas também podem se tornar comportamentos rígidos e cristalizados, que, mais do que ajudar, contribuem para complicar a relação entre o profissional e o paciente.

No meu plano de saúde, em três consultas com profissionais diferentes, descobri que o protocolo de consulta demora ao todo 15 minutos, no máximo. Sem problemas.

Melhor, sem problemas até consultar o último médico, depois de vários outros, particulares, pois amigos e amigas queriam saber tudo sobre meu problema antes de eu ir para a consulta do plano. E cada um tem um médico milagroso, que tem de ser consultado a qualquer preço. Esses médicos me sugeriram cirurgia, para resolver o problema da artrose, que me maltrata há cerca de um ano.

Exames em punho, lá fui eu, animada, para o que pensava ser a última consulta antes de uma proposta de solução para uma dor que me persegue sem trégua.

Minha vez, entro na sala. Encontro uma moça sentada diante do computador. Ela se apresenta. É a fisioterapeuta que vai fazer a consulta. Ótimo, conto todo o caso, mostro os exames, sem falar de médicos anteriores. Ela verifica tudo, manda-me deitar, faz as manobras com as minhas pernas, sem verificar pés e joelhos, como fizeram todos os médicos anteriores e o fisioterapeuta que me atende.

Escreve no computador até a entrada do médico. Sem oferecer apertar minha mão (ok, é uma clínica, pode ser questão de evitar doenças), mal diz boa tarde, ouve o que a fisioterapeuta tinha a lhe dizer, dão-me um papel que diz que preciso de fisioterapia, que está tudo bem… Meu problema está no início. Minha dor? Digo que o remédio não está ajudando. Responde que não foi ele que receitou e dá por terminada a consulta. Não foi, mesmo. Mas esperava que ele pelo menos sugerisse algum outro tratamento.

Saí em estado de choque. Não tinha nada pra dizer, nem pra perguntar.

Foi aí que fiquei pensando nos tais protocolos. Aquilo que foi desenvolvido provavelmente tendo em vista o bom atendimento da pessoa em consulta parece pelo menos em alguns casos ter se transformado em uma forma de marcar distâncias, de transmitir a ideia de que o doutor(a) e a(o) fisioterapeuta, no caso, sabem, enquanto a pessoa que sofre a dor não tem nada a dizer.

Venho da área da psicologia. E da psicoterapia. Todas as especializações que fiz sempre reforçaram a ideia de ouvir a pessoa que sofre, de estar presente para ela durante a sessão.

Diria até, embora precise de tempo de reflexão e análise para afirmar categoricamente, que algumas linhas parecem ter desenvolvido algum tipo de protocolo, do qual surgiram as técnicas de coaching, com atendimento estereotipado, com o uso obrigatório de algumas palavras-chave.

Parece que está passando o momento de retomar a humanidade do ser humano, como diria Edgar Morin. Ser gente em um mundo de gente, com menos protocolos e mais afeto.

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Vera Lucia Vaccari
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